Arizona 2010 – Nós queremos, nós podemos, nós faremos!

 Marco Antonio Calábria
 
82 atletas dedicados e disciplinados quebram o Recorde Brasileiro de FQL
 
Quando, no início de 2009, a Carmem Pettená me falou pela primeira vez de certo projeto de recorde de grandes formações em queda livre que, segundo ela, se realizaria em Skydive Arizona, nos Estados Unidos, no ano seguinte, pensei que tudo não passava de mais um daqueles sonhos que nunca saem do papel ou que acabam ficando mesmo somente na imaginação de seus idealizadores. E eu tinha boas razões para pensar assim. Em primeiro lugar, por causa do dificílimo desafio de um evento dessa natureza e, em segundo lugar, pelo pouco tempo disponível para desenvolver e implementar toda a complexa logística necessária para levar mais de 100 paraquedistas aos EUA que, em uma semana, tentariam estabelecer um novo recorde brasileiro e sul-americano de grandes formações.
Mas, por outro lado, eu também tinha razões de sobra para acreditar na concretização daquele sonho. Afinal, quem, como eu, conhece há anos a obstinação da Carmem, sabe que quando ela coloca uma ideia na cabeça... Basta lembrar os recordes anteriormente organizados por ela e que foram, cada um ao seu tempo, projetos da mesma forma ambiciosos.
Apenas alguns meses após esse primeiro contato haviam se passado quando, ainda em 2009, diversos atletas receberam via e-mail convite formal para participar do “Recorde Brasileiro e Sul-Americano de Grandes Formações – FQL”. Fiquei olhando para aquela mensagem na tela do computador por algum tempo e, sem conseguir disfarçar um sorriso de contentamento, pensei comigo mesmo: ela vai fazer de novo!
E fez mesmo. Com o apoio e a participação direta e decisiva do presidente da Confederação – Jota Derviche –, foi constituído numeroso grupo de trabalho que, com extrema competência, cuidou de cada detalhe da complexa organização logística e técnica imprescindível à realização de um evento dessa magnitude.
Assim, em novembro do ano passado, como parte da preparação dos atletas para a tentativa de recorde, já acontecia o primeiro training camp, na base aérea de Taubaté. O projeto inicialmente idealizado pela Carmem deixava de ser apenas um sonho e definitivamente ganhava status de realidade. Um segundo treinamento aconteceu na mesma base aérea de Taubaté, em março deste ano, sob a coordenação técnica de ninguém menos que Kate Cooper, quando foi concluída com sucesso a fase de treinamento no Brasil.
Finalmente, na noite de 16 de abril, uma sexta-feira, mais de 100 atletas embarcavam rumo a Skydive Arizona, nos Estados Unidos, com um único objetivo na mente: superar o recorde anterior de 80, batido em Florianópolis em 2005, e, se possível, estabelecer um novo recorde brasileiro e sul-americano, com uma formação de 100 paraquedistas em queda livre.
Dando sequência ao que tinha sido planejado, já na tarde de domingo, dia 18, sob o sol escaldante do deserto do Arizona, começavam os saltos preparatórios para o recorde. O grupo foi dividido em seis equipes – cada uma com mais ou menos 20 integrantes –, que, sob a supervisão de team captains prévia e criteriosamente selecionados, deram início a uma sequência de saltos que tinham por finalidade treinar e aperfeiçoar ainda mais os fundamentos específicos de um 100-way. Como a maioria ainda estava cansada da desgastante viagem do dia anterior, os saltos foram mais descontraídos, objetivando prioritariamente uma adaptação à área de Skydive Arizona e a diminuição da natural ansiedade dos envolvidos. Mesmo assim, o bom nível técnico atingido por todos os grupos nesse primeiro dia foi uma grata surpresa e motivo de muita comemoração.
Na segunda-feira seguinte, o ritmo das atividades mudou significativamente. Os team captains já haviam deixado claro para todos os atletas, desde o dia anterior, que seria exigida muita seriedade, concentração e um foco inteiramente voltado para os objetivos específicos do recorde. Assim, o café da manhã no hotel foi servido às 6h e pontualmente às 6h45 todos embarcaram nas vans fornecidas pela organização rumo à área de saltos.
Uma constante e inconveniente camada de nuvens sobre a área, com altura variando de 8 a 10.000 pés – pouco comum nessa região –, impediu, durante toda a manhã, os saltos de treinamento da base, que agora contava com 43 integrantes que saltariam de um Skyvan e de um Twin Otter voando em formação. Os outros grupos, no entanto, por serem menores, treinaram normalmente. Com melhores condições metereológicas no período da tarde, o grupo da base realizou apenas dois saltos durante todo o dia, enquanto os demais realizaram de quatro a cinco saltos.
O terceiro dia de treinamentos – terça-feira – caracterizou-se pelo aumento gradativo do número de integrantes do grupo da base e por uma maior exigência de performance técnica por parte dos team captains. Pela primeira vez, ouvimos advertências do tipo “se você repetir esse erro, estará fora do recorde” ou “se você se atrasar para o briefing novamente, estará fora”, e outras na mesma linha. Percebemos, da forma mais direta possível, que o objetivo buscado era a quebra do recorde e que a diversão de saltar era explicitamente secundária. Enquanto isso, ao longo do dia, os demais grupos continuavam treinando paralelamente.
Ao longo dos quatro saltos realizados durante o dia, o número de paraquedistas no grupo da base foi aumentando, de modo que no quarto e último salto da terça-feira havia 82 pessoas no time. Se todos “fechassem”, isso já seria um novo recorde, mas esse não era ainda o objetivo. O que os team captains queriam era ver todos voando para uma sólida construção da formação, demonstrando disciplina e habilidade técnica para pôr em prática todos os fundamentos do salto, sem exceções. E, sendo assim, o objetivo foi cumprido, pois, saltando de quatro aviões a 16.000 pés, a formação quase foi completada, embora, como dito, esse não fosse ainda o objetivo. Mas já era possível perceber que o recorde estava cada vez mais próximo.
         Quarto dia, quarta-feira. Um dia decepcionante, que amanheceu com ventos de 30 nós no solo e 40 nós acima de 1.000 pés, o que significava condição extremamente crítica para saltar com segurança.
         Os team captains se reuniram e decidiram que, apesar das adversidades, deveríamos saltar. Antes, porém, consultaram todo o grupo para saber se alguém não se sentia seguro nessas condições de tempo e, assim, preferiria ficar no chão. Embora com alguma dose de insegurança, todos concordaram em saltar. Depois de muito briefing, um bem treinado grupo de 84 paraquedistas subiu para 16.000 pés. Se a formação fosse completada, teríamos um novo recorde brasileiro.
Mas, de novo, o objetivo não foi alcançado. Pior, o vento havia aumentado e o pouso foi crítico, com a maioria dos velames voando de ré. O bom senso determinou que os saltos fossem suspensos momentaneamente. Assim, com alguma folga de tempo, Kate Cooper conduziu um briefing detalhando cada mínima etapa do salto, até a hora do almoço. Como não houve melhora do tempo, as atividades do dia foram definitivamente suspensas.
Na quinta-feira, o café foi servido no hotel às 5h da manhã! E às 5h45 todos já estavam na área prontos para o início dos saltos, já que a previsão do tempo não era muito boa – a partir das 11h poderia chover.
Duas tentativas de quebra de recorde foram feitas antes das 10h da manhã, sem sucesso, no entanto. O destaque desses saltos foi que todos foram surpreendidos por um frio inacreditável durante a subida e a queda livre. A saída dos aviões ocorreu numa temperatura de 40ºC negativos, o que acarretou um dolorido e desconfortável congelamento das mãos daqueles que não usavam luvas. Além disso, a baixíssima temperatura ainda causou o embaçamento das viseiras dos capacetes durante a queda livre, o que praticamente impediu que várias pessoas pudessem chegar aos seus slots. Ninguém esperava condições assim tão severas num clima de deserto e, certamente, esse foi um susto para ficar na memória.
Uma terceira tentativa ainda foi feita no final da manhã, mas, após subirem a 13.000 pés, os aviões tiveram que retornar ao solo com os paraquedistas, por conta de uma espessa camada de nuvens que tomou conta do céu em poucos minutos, cuja base estava a cerca de 5.000 pés de altura. As condições do tempo não mais melhoraram até o fim do dia e, após inúmeros briefings, um novo day-off foi decidido pela organização para o desalento geral. Pior, nenhum recorde ainda tinha sido batido e agora havia apenas mais um dia para tentar. A pressão psicológica sobre todos os envolvidos aumentava a cada minuto, causando certa intranquilidade geral.
A sexta-feira, último dia para se tentar a quebra do recorde, como não podia deixar de ser, começou num clima de muita ansiedade e apreensão geral. E isso podia ser claramente notado no semblante de todos – paraquedistas e o pessoal da organização. Afinal, o recorde, que no início parecia que seria quebrado até com certa facilidade, surpreendentemente ainda não havia acontecido. Sem dúvida, havia muita confiança e o moral do grupo estava alto, mas todos os envolvidos também sentiam a possibilidade real e o peso de um possível e terrível fracasso.
Novamente, sob um frio intenso, a primeira decolagem estava pronta para subir antes das 6h30. Mais uma vez, antes das 10h, duas tentativas haviam sido feitas. No entanto, o recorde ainda insistia em não acontecer. E veio o terceiro salto do dia, o quarto, uma exaustiva e interminável série de briefings. O pôr do sol se aproximava e nada de recorde. Pior, durante essa verdadeira maratona, dois atletas tiveram que se desligar do grupo, por motivo de saúde. Os organizadores, então, decidiram não substituí-los, para que não houvesse alterações de última hora no salto que vinha sendo repetidamente brifado.
O grupo ficou, então, reduzido a 82 paraquedistas que, numa insana correria para se equipar, do jeito que dava, embarcaram para o quinto salto do dia – a última decolagem. Agora era tudo ou nada. Não havia possibilidade de ninguém errar mais, e todos sabiam disso. Não haveria outra chance. Ou o recorde seria quebrado naquele momento, ou logo descobriríamos que todo aquele sacrifício ainda não tinha sido suficiente para a realização do ambicioso sonho. Imagine como estava a cabeça de cada paraquedista, cada team captain, cada membro da organização, enquanto o grupo concentrado e em silêncio ganhava altura para o quinto e último salto do dia. Tudo isso após uma incrivelmente repetitiva e estafante maratona de treinamentos e saltos, treinamentos e saltos, treinamentos e saltos...
O suspense era terrível quando o Skyvan e os três Twin Otters se alinharam em formação a 18.000 pés sobre o deserto do Arizona, na reta final de lançamento. O sol começara a se pôr, era agora ou nunca, ninguém podia errar! Corações a mil e respiração suspensa quando a base começou a sair. Um a um, os paraquedistas se lançavam em queda livre, num voo simétrico, organizado, suave e ao mesmo tempo agressivo, corpos doídos, mas cheios de vontade e confiança. Na mente um só objetivo: o recorde!
O tempo pareceu correr mais devagar, em câmera lenta, quase parando, à medida que aquela figura ganhava forma. Respiração agora ofegante. Até parecia que as forças que regem o universo, por uma questão de pura justiça, pouco a pouco se rendiam. E prestavam homenagem à inigualável beleza de tanta troca de energia positiva, tanta luta, tanta dedicação, tanta entrega pessoal. E aquela formação ia ficando maior, e maior, e maior... Até que o último paraquedista, suavemente, fez o seu gripe. E o tempo, de verdade, parou para admirar aquele momento único... Quem estava lá pode confirmar. E ela voou linda, sólida, perfeita, por vários segundos, como tinha que ser. Recorde brasileiro! Recorde sul-americano! Acabou, missão cumprida!
Sobre as comemorações a partir daí, só posso dizer que foram proporcionais à grandeza do feito. Como sempre repete o Rogério Martinati, se recorde fosse fácil, nós faríamos um a cada fim de semana. E foi difícil, foi suado, foi sofrido, como devem ser as grandes conquistas. E todos os envolvidos, sem exceção, sentiram cada milímetro desse desgaste, mas tiveram papel essencial no resultado alcançado.
Se não se conseguiu o objetivo inicial – recorde de 100 –, aquela semana no Arizona mostrou algo muito claramente: o grupo tem talento e disciplina de sobra para cumprir essa meta. É, Carmem, mais uma vez, você tem razão: nós queremos, nós podemos, nós faremos! E faremos mesmo.
Alguém duvida?

Confira os depoimentos e o nome dos recordistas na edição 175!

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