Além de um recorde

Se depender de garra, disposição, união e humor, as mulheres vão chegar muito além de um simples recorde no final deste ano Por Ricardo Contel Pense em uma área de saltos cheia de atletas sedentos por conseguir atingir um objetivo comum, como um recorde. Pense agora em um grupo de pessoas de diferentes níveis de habilidade, onde isso não diz muita coisa, mas sim a igualdade de direitos e deveres dessas pessoas para atingir algo maior. Pense também num bando de gente de fibra, pessoas destemidas e corajosas, mas que não deixam de lado a humildade. Some-se a isso o fato de todas essas pessoas serem pára-quedistas, e do sexo frágil. Agora pense o que vai acontecer com o autor dessas linhas, assim que cruzar com uma dessas garotas no próximo final de semana na área de saltos... "Sexo frágil seu ilhós!", diriam elas em coro. Girls rocks! No final de semana de 7 e 8 de junho, as meninas se reuniram novamente no Centro Nacional de Pára-quedismo, Boituva, SP, para o segundo treinamento do grupo. A idéia - que surgiu do atleta paulistano Guilherme Rathsam - tomou forma e consistência, aprovação do mulherio, e o resultado desse segundo encontro foi a presença de 36 garotas na área de saltos, mais precisamente no Hotel Skydive Boituva. Gente que veio de muito longe para prestigiar o grupo e participar dos saltos de treinamento. A receita é muito simples e eficiente. Convocam-se algumas "coachs", pára-quedistas com larga experiência como Ziara Abud, Márcia Farkouh, Juliana Sé e Justine "Gringa", e divide-se o conjunto de garotas em grupos, maiores ou menores, de acordo com a experiência de cada uma. Nesse contexto de aprendizado, os grupos podem ter até três pessoas (coach e duas participantes), ou até one-on-one (treinamento personalizado). Assim, o conceito do evento não está focado diretamente em realizar um recorde, mas muito mais em um encontro de mulheres, pára-quedistas de todos os níveis, que querem aprender mais, saltando. E se divertir, claro. Profissionalismo e coletividade Ao contrário do evento passado (19 e 20 de abril), dessa vez a organização sugeriu a cobrança de uma inscrição das participantes, determinada em até R$150,00 para o final de semana. Assim, as pessoas que lá estavam para trabalhar, receberam seus profits. No evento anterior, muitos profissionais haviam doado seu tempo e seus serviços, em prol da iniciativa. Mas as próprias meninas e a organização, ao final, perceberam a necessidade de retribuir aos coachs e cameramen envolvidos, de uma forma mais profissional. A receita de se pagar uma inscrição, ao invés de profits rateados por saltos, foi uma solução muito feliz, pois estimulou aquelas que estão atualmente com maior necessidade de aprimoramento técnico, a realizar saltos menores ou de BBF com custos muito abaixo do mercado, e gerou uma instrução personalizada. Uma conduta que primou pela idéia do grupo: a da coletividade. Mostrando a que veio essa mulherada. Quem acompanhou de perto o treinamento desse final de semana, percebeu que há nível técnico suficiente para se quebrar o recorde feminino (atualmente um 18 way, completado em Campinas em 1999). Cogita-se uma formação de mais de 25 mulheres nos céus de Boituva em 15 e 16 de novembro deste ano, data oficial das tentativas. Mas percebe-se que este não é necessariamente o foco do grupo, e sim o aprendizado e a congregação dessas pára-quedistas. O recorde será uma mera conseqüência de um bom trabalho de aprimoramento técnico e fortalecimento de amizades. Novamente a falta de aviões em Boituva Mas mesmo com um grupo grande e coeso, boa organização e presença maciça, um revés tomou conta das meninas nesse final de semana. A falta recorrente de aeronaves na área de saltos de Boituva - que operou com apenas dois Caravans - acabou prejudicando muito a dinâmica do evento. No sábado, um pouco decepcionadas, conseguiram fazer apenas três saltos, dos cinco previstos. E isso, mesmo chegando bem cedo na área, conforme o combinado. No domingo, foi pior. Umas fizeram dois e outras, apenas um salto. Vindas de vários cantos do país, a frustração era grande, pois algumas delas chegaram a gastar R$2.000,00 para se deslocar até Boituva. Mesmo a boa disposição da organização, precisamente Guilherme Rathsam, que dedicou-se integralmente ao manifesto das decolagens, não conseguiu resolver o problema. Conforme o domingo se desenvolvia, grupos prontos de mulheres foram proibidos de embarcar na decolagem prevista, para dar espaço a outros saltadores. A área estava lotada, com muita atividade, e a Vera Cruz optou por manter a prioridade para as escolas que lá operam todos os finais de semana, numa atitude acertada (veja Box) por um lado, mas que acabou estourando para o lado das meninas. Sabendo dos planos em realizar o referido evento, por que a Vera Cruz não providenciou uma terceira aeronave que, sabe-se, existe à disposição para situações como essa? Segundo nos informou Justine, Renato Langona, responsável pelas aeronaves, simplesmente "esqueceu-se" do evento. Guilherme Rathsam, inconsolável, afirmava que cansara de se certificar se haveria aeronaves suficientes na área. Mesmo obtendo um "positivo" durante a semana, o fato é que apenas duas aeronaves estavam presentes e o caos se instaurou. Mais triste ainda foi o relato de Ziara Abud, mencionando a atitude de um tandem pilot de uma das escolas que operam em Boituva, reclamando firmemente às garotas, no momento da espera de um embarque, que elas "não deveriam estar na área de saltos, mas sim em suas casas, cozinhando ou passando roupa. Os saltos delas estavam atrapalhando o andamento da área". Triste atitude para uma iniciativa com tanta importância para o esporte. Afinal, são de eventos como esse que outros(as) pára-quedistas ficaram motivados(as) a evoluir tecnicamente. Domitila Aidar, experiente pára-quedista participante, apontou a falta que fez a Cidinha na área: "Se a Cidinha estivesse aqui, teríamos saltado mais. Ela não deixaria isso acontecer conosco". E, por fim, para não perder o bom humor, uma frase que encerrou o evento com ironia, vinda de um dos cameramen, o Ramela: "Pô, quando chove mulher na área, eles vão lá e fecham a torneira?". Mais aviões ou planos para o exterior Depois que a última decolagem das meninas fora cancelada por motivos que não vale a pena relatar nessas linhas - mas vale lembrar que foi por uma questão de conceito de segurança (que elas têm notavelmente de sobra) - por volta das 14h do domingo, elas se reuniram para discutir a situação em que se encontravam. Não faltaram críticas à conduta da Vera Cruz que acabou prejudicando - por mais que Renato Langona fizesse das tripas coração para ajudar - o segundo treinamento delas. Cogitou-se seriamente em se quebrar o referido recorde em solo norte-americano, venezuelano e até paraguaio. Algumas delas já começaram a fazer as contas. Não é de hoje que tem havido algum tipo de gargalo na operação aérea do CNP. A Vera Cruz tem suprido a área, como é sabido, com modernas aeronaves, o que revolucionou a operação de saltos no Centro Nacional. Entretanto, com o grande aumento da demanda, especialmente pelas escolas locais, além é claro, dos freqüentadores assíduos, existe uma necessidade maior de aeronaves. Resta-nos esperar que a Vera Cruz supra essa demanda, normalizando a operação aos finais de semana no CNP, ou que surjam outras opções de aeronaves para a prática do pára-quedismo em Boituva. O exemplo delas Por fim, fica aqui registrada a torcida para que as meninas continuem a colorir os céus brasileiros, e que a Vera Cruz, que há anos vem atuando no CNP com aviões rápidos, confortáveis e seguros, traga uma solução para o próximo encontro (marcado para 23 e 24 de agosto) e não as frustre novamente. Pelo contrário, faça valer todo o esforço e dedicação de cada uma delas, que vêm dando um belíssimo resultado até aqui. Quem viu, percebeu que além de boas de queda, são um exemplo a se espelhar. E por tudo isso, merecem nosso respeito e admiração. Os homens que ainda não aprenderam a dividir a cozinha com elas, que assumam aos finais de semana o fogão e o ferro de passar de suas próprias casas, enquanto elas vão saltar, se divertir e, quem sabe, ensinar a estes, um pouquinho de humildade e dedicação. Isso elas têm de sobra. BOX Aeronaves A prioridade tem de ser a escola. Mas deve haver planejamento e flexibilidade Não foram poucas as vezes que fiquei sem saltar no CNP por falta de vagas. Algumas vezes fazendo saltos de TR com grupos, outras com passageiro de salto duplo. Pra mim, não existe nada mais maléfico ao nosso pára-quedismo, que um passageiro de salto duplo, ou um aluno em formação, não conseguir saltar por falta de vaga no avião quando ele passa o dia inteiro para fazer um único salto. A condição do clima é fundamental e implica diretamente na segurança do salto. Então, caso a inviabilidade de saltar venha desse fator, não há o que discutir. É chão! Agora, se o motivo de não saltar é por conta de um gargalo na operação aérea, pra mim não há dúvidas de que a prioridade é da escola. Primeiro por uma questão de respeito àqueles que, assim como nós, um dia resolveram experimentar esse mundo maravilhoso do pára-quedismo. Já vi muito passageiro indo embora da área sem poder saltar. Quando o motivo é o mau tempo, paciência, há um entendimento que não havia de forma alguma como saltar naquele momento. Agora, quando existe a espera, o dia se arrasta e, ao final, não ocorre o salto, o quê explicar? Como convencer o passageiro (ou aluno) que você fez tudo o que pôde para lhe entregar o serviço? O salto? Essas pessoas estão em seu primeiro salto (ou passos) no esporte, e merecem nossa atenção. Alunos passam vários finais de semana em épocas de chuvas ou ventos, sem saltar, fissurados e cada vez mais aflitos, por não conseguirem fazer aquele próximo salto... Podemos imaginar sua ansiedade? Já passamos por isso. A eles devemos um certo respeito e consideração. E o que dizer das escolas? Esse é o lado comercial que envolve a relação entre a operação aérea e as áreas de salto. Especialmente o CNP, que possui mais de 13 escolas operando todos os finais de semana. São essas escolas que mantêm um maior fluxo de saltos todos os finais de semana. E isso ocorre na grande maioria das áreas de salto do mundo todo. Por isso, essa boa relação deve se manter. Não se enganem. As escolas sempre serão prioridade número um pelos dois motivos explicados acima. Agora, o que dizer da continuidade de nosso esporte? Já escrevi em alguns editoriais a tendência de o pára-quedismo acabar restrito a uma atividade tipo parque de diversões, onde as escolas - como já ocorre hoje em Boituva - focam comercialmente o salto duplo. Essa é, de fato, uma maneira rápida e prática de fazer dinheiro. Mas com isso acabam negligenciando uma operação mais pró-ativa para o aluno, para o clube, que é promover o encontro de atletas, realizar eventos e estimular seus atletas filiados a continuarem a saltar. Penso que falta mesmo uma política mais dinâmica nesse contexto, na maioria das escolas. Assim, se vamos ter de passar por essas situações mais vezes, podemos tentar amainar as conseqüências pensando em algumas formas para poder contemplar tanto escolas, quanto freqüentadores e eventos do CNP: 1 - Fazendo com que as atividades de salto comecem mais cedo nas escolas. São poucas as que conseguem decolar antes das 8h em alguns finais de semana, o que dirá em relação à média. Começando cedo, a oferta de vagas aumenta consideravelmente. 2 - Idem para os pára-quedistas recreativos. Comecem cedo. 3 - Se essa é uma idéia velha, pouco original, mas eficaz, e a oferta de saltos EXISTE no começo da manhã, o que está fazendo a Vera Cruz que ainda não lançou promoções para saltos logo cedo? Todos sabemos que, se começamos a operação mais cedo, saltamos mais. 4 - É importante que a Vera Cruz tenha um canal de comunicação mais eficiente com a comunidade. O fato de simplesmente "esquecer-se" do evento e não suprir o necessário em capacidade aérea, é uma afronta às meninas e um tiro no pé da Vera Cruz. Um final de semana repleto de pessoas para saltar e faltou avião: faturou menos. 5 - Por fim, mais companheirismo por parte de nossos irmãos e irmãs pára-quedistas e, claro, um curso de culinária para os machistas de plantão. Com avental de florzinhas coloridas, como cortesia dessa revista.
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