Tornei-me Categoria A
E agora?
Valter Gonzales
Depois de obterem a Categoria A, os novos atletas encaram uma das fases mais difíceis de sua carreira no esporte - a transição da fase em que eles têm toda a atenção e assistência, para a fase em que têm de fazer tudo sozinhos – manifesto, planejamento do salto, etc. Fase esta em que eles se tornam tão independentes que chegam a ficar quase invisíveis na área de salto. Sem contar com as muitas dúvidas em relação a que caminho seguir, como treinar e qual modalidade escolher. Livres, mas sem muita orientação, podem até se tornar um problema para a segurança no esporte.
Lembro-me muito bem quando tornei-me Categoria A em 2006. Sempre dedicado, interessado e cheio de vontade de aprender coisas novas, comecei a procurar orientação de atletas mais antigos e instrutores. No entanto, informações desencontradas e nem sempre precisas, poderiam ter me afastado da área de saltos. Mas como sempre fui muito curioso, acabei encontrando o caminho certo. Comprei o equipamento adequado (buscando orientação técnica e respeitando-a), fiz treinamento em túnel de vento com coach e curso de pilotagem de velame. Depois, por me interessar em me aprofundar na instrução, já com 250 saltos, busquei um curso de coach. E a orientação de escolas idôneas, instrutores renomados, leituras e mais leituras me ajudaram também a chegar até aqui.
Mas o que acontece quando temos aqueles atletas mais tímidos e dependentes? Devemos deixá-los encontrar seus caminhos sozinhos? Ou podemos interferir e orientá-los? Bem, já sabemos que dedicação e vontade de saltar não lhes faltam. No entanto, esses novos atletas acabam ficando isolados, pois ninguém parece querer saltar com eles – o que os leva a fazer muitos saltos solo e o pior, eles podem até se sentirem ignorados e parar de freqüentar a área de saltos. Em qualquer um dos casos, a paixão pelo esporte pode desaparecer e fazer com que eles desistam de saltar. Mas isso não pode acontecer, pois os novos atletas são o futuro do esporte. Todos os atletas, novos ou experientes, instrutores e donos de escola, podem ajudar a transformar essa fase ruim em uma fase de muito sucesso.
Maurício Baboghluian e Ricardo Piromal obtiveram Categoria A recentemente saltando em Boituva, SP, e ainda parecem estar em dúvida em relação a que caminho seguir. Ambos, já um pouco cansados dos saltos solo, têm a mesma aspiração – participar de big-ways. Mas como chegar lá? Quais os caminhos a seguir? Essas são algumas dúvidas que podem ser facilmente respondidas por atletas experientes e, por esta razão, a Air Press consultou alguns instrutores em Boituva.
Escolha um guru
Fábio Diniz, com mais de 7000 saltos, instrutor do CTR, acredita que há vários caminhos a seguir, mas o primeiro passo seria a escolha de um guru, justamente para que ele possa, junto com o atleta, selecionar as informações recebidas de outros atletas e adotar as mais adequadas. A importância desse guru, segundo Diniz, é ajudar o atleta nos momentos em que surgirem tais conflitos. O atleta deve, na verdade, ouvir a todos, mas com a ajuda de seu guru, fazer a escolha certa do caminho a seguir.
Esse tal guru a que Diniz se refere poderia ser o próprio instrutor AFF. Mas o que ocorre na prática, foge deste ideal. Justamente pela necessidade em dar atenção aos novos alunos, esse instrutor acaba deixando seu aluno recém-formado um pouco de lado, o que faz com que ele se desoriente, ou acabe buscando ajuda com outros atletas e instrutores.
Após a escolha desse guru, Diniz acredita que o novo atleta deve estabelecer planos e objetivos no esporte. Que tipo de pará-quedista eu quero ser? Quero apenas me divertir? Quero participar de big-ways? Quero participar de competições? Quero treinar TR ou Freefly? Enfim, Diniz acredita também que, independente de qualquer coisa, a segurança no esporte tem de estar em primeiro plano. E para que a segurança seja priorizada, o novo atleta deve, sobretudo, ter a certeza de que seu guru tem um bom histórico no esporte, seja reconhecido e devidamente documentado e, sobretudo, pratica e incentiva a segurança na área de saltos. O novo atleta terá acesso a tais informações através de pesquisas na Internet, conversas na área de salto, orientações de instrutores, etc.
Segurança sempre
 
Octavio Brasil, com mais de 4000 saltos, instrutor da Azul do Vento, acredita que, em primeiro lugar, o atleta tem que ficar sempre atento à segurança – no solo (check de equipamento, equipagem, embarque), durante a subida (cinto, proteção dos punhos, combinar ordem de saída) e durante o salto (queda-livre e navegação).
 
Qualquer que seja o tipo de salto que pretende realizar, Octavio orienta a sempre planejar previamente (se for preciso pedir dicas de exercícios aos instrutores amigos de confiança). Criar hábitos de colocar objetivos em cada salto, incluindo os exercícios e manobras que pretende realizar, sinalização e altura de comando, navegação e pouso, tomando cuidado com o tráfego e obedecendo aos padrões.
 
Algumas pessoas às vezes dizem “faça freefly” e outras dizem “faça TR e BBF”, diz Brasil. Alguns “barrigueiros” não sabem voar freefly e alguns freeflyers não sabem voar de barriga. Então evite adquirir vícios. Aperfeiçoe suas habilidades sem preconceitos. É perfeitamente compatível treinar o programa BBF para voar bem de barriga e treinar Freefly para se divertir nessa modalidade também. Afinal, porque ficar de fora de um bom salto com os amigos só porque você não tem habilidade para essa ou aquela modalidade?
 
Sempre que tiver dúvidas, pergunte. Não é “mico” não saber algo que você nunca viu, nunca fez ou ficou curioso a respeito. Isso vale para dicas técnicas e principalmente para aspectos de segurança, se tiver dúvidas.
Brasil conclui – “siga os bons exemplos”. Isso determinará que tipo de pára-quedista você será.
 
Marcelo Costa, com mais de 6000 saltos, instrutor e proprietário da Sky Company, também acredita que o novo atleta ainda está perdido e necessita de orientação de instrutores mais experientes e também precisa preocupar-se com a segurança no esporte, pois apenas através de treinamento individual é que o novo atleta vai se tornar um paraquedista mais preparado e consciente da segurança.
Coach pós AFF
Eslin Saldanha, com mais de 3000 saltos, instrutor da Fly Factory, acredita que o aluno deve, antes de tudo, selecionar o equipamento adequado à modalidade escolhida, seja ela TR ou Freefly. Quanto à quantidade de saltos, não há impedimentos para a realização de uma modalidade ou de outra, mas sim, o nível de instrução é que será importante nesse momento em que o aluno se torna Categoria A. A orientação dada por Saldanha aos novatos é a de ter instrução individual, independente da modalidade escolhida, pois em sua opinião, o atleta iniciante necessita de instrução complementar ao AFF, pois o que ele aprende enquanto aluno é apenas o necessário para sua sobrevivência, pois ele ainda não é um esportista.
Saldanha reforça também que o aluno deve buscar uma escola reconhecida, que tenha um método estruturado, que saiba orientar o aluno em todos os sentidos, tanto na escolha do equipamento, na navegação, no pouso, nos procedimentos de emergência, etc.
Como vemos, a primeira preocupação deve ser, sem sombra de dúvidas, com a segurança no esporte. Como tudo ainda é muito novo para o atleta Categoria A, uma constante revisão dos procedimentos de emergência deve ser feita. Questões como condições do tempo, lançamento, ponto de saída, navegação e pouso, principalmente pela própria inexperiência do atleta, também devem ser levadas em conta.
A seguir, algumas sugestões do que fazer como novo atleta, traduzidas da revista Parachutist, edição 590, de Dezembro de 2008:
  • Apareça! Faça perguntas, se apresente;
  • Socialize-se – tenha um papel ativo no aspecto social de sua área de salto;
  • Saiba que você é bem-vindo – seus companheiros de área desejam que você se divirta e tenha uma carreira de sucesso;
  • Seja confiante – compartilhe seus objetivos e entusiasmo; seja extrovertido;
  • Peça ajuda – procure instrutores que trabalham com atletas menos experientes;
  • Treine em túnel de vento – aprimore suas habilidades em treinamento de túnel;
  • Peça conselhos – pergunte aos mais experientes o que você precisa fazer para melhorar suas habilidades;
  • Busque visibilidade – peça aos instrutores com quem você salta para apresentá-lo a outros atletas mais experientes;
  • Viaje – se a sua área de saltos não possui uma boa estrutura para novos atletas, viaje para outras áreas maiores, participe de eventos, etc;
  • Conecte-se – conheça outros novos atletas, mantenha contatos por e-mail ou fone e faça planos para treinar com eles;
  • Desenvolva as habilidades básicas – se você quer aprender freefly, desenvolva primeiro as habilidades básicas de vôo de barriga;
  • Não desanime – você poderá muitas vezes ficar fora de alguns saltos, mas não deixe que isso o desanime. Se você não for aceito para um salto, pergunte pelo próximo do dia, ou do dia seguinte;
  • Promova-se – faça com que os atletas mais experientes saibam sobre o seu progresso, que tipo de saltos tem feito, quantas horas de túnel você tem, etc;
  • Invista em seu futuro – você precisará, muitas vezes, pagar o ticket para atletas mais experientes saltar com você; se fizer a escolha certa, você não irá se arrepender;
  • Continue saltando – mesmo um 2-way é uma melhor opção que um salto solo.
Uma vez inserido nessa comunidade, treinado e com mais habilidades, chegou a sua vez de compartilhar o que aprendeu! Apresente-se aos novatos, lembre-se de seus dias de conflitos e ofereça ajuda. Lembre-se da importância de estabelecer sempre novos objetivos e ajude aos menos experientes nessa batalha. Todos nós, experientes ou não, somos responsáveis pelo desenvolvimento do esporte, seja lá qual for a modalidade escolhida, temos todos um objetivo em comum – o de voar! E para tanto, temos que procurar sempre sermos bons atletas, mais responsáveis, dedicados e comprometidos com o futuro do pará-quedismo e, sobretudo, entendermos que para que tenhamos sucesso no esporte, temos que ser mais seguros e praticar a segurança dentro da área de saltos.
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